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A Trilha dos Evangelistas

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Por Álvaro – para o blog Contos Místicos Caminhava por uma terra que meus olhos nunca tinham visto. O chão era seco, mas não morto. O céu, de um azul tão profundo que parecia respirar. A cada passo meu, brotava vida. Folhas verdes, viçosas, rompiam do solo como se meus pés despertassem a terra. Era como se o chão esperasse por mim. E eu não sabia por quê. Continuei andando, deixando atrás de mim uma trilha de esperança. Cada planta que surgia sussurrava silêncio — não um silêncio vazio, mas um silêncio que dizia: “Você está no caminho.” Até que os vi. Quatro homens, em trajes longos como túnicas de uma era antiga, se aproximaram. Um deles carregava um cajado. Seus olhos eram tão profundos quanto o céu daquele lugar. Havia sabedoria nos seus rostos, mas também um certo amor que me desarmou. Eles pararam diante de mim, e como se falassem ao mesmo tempo, disseram com voz mansa: — Somos os quatro evangelistas. — Mateus. Marcos. Lucas. João. Senti meu coração estremecer. Não de medo. Mas de...

"O Selo da Visitante"

Havia silêncio naquele fim de tarde. O céu, entre dourado e violeta, parecia esconder segredos antigos. Sentado à sombra de uma figueira antiga, ele contemplava o mundo como quem escuta um sussurro que ainda não foi dito. Foi então que duas figuras surgiram ao longe. Uma delas, ele reconheceu — uma irmã da igreja, rosto familiar, presença serena. Mas era a que vinha ao lado dela que fez o tempo parar. Ela caminhava com suavidade, como se pisasse em outra dimensão. Os olhos dela traziam uma calma imensa, e seus lábios, finos e silenciosos, carregavam o mistério de mil palavras não ditas. Era bela, sim — mas de uma beleza que não se descreve com traços, e sim com sensações. Como se o coração dela já tivesse conhecido o dele antes que qualquer vida começasse. Sem dizer uma palavra, ela se aproximou. A irmã sorriu de leve, como quem entrega algo sagrado. E então, como em um antigo rito esquecido pelas eras, a mulher pousou os dedos no queixo dele e, com infinita delicadeza, selou seus lábi...

À BEIRA DA TERRA SANTA

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Era fim de tarde, mas o céu parecia já em luto. As nuvens pesavam como véus sobre o horizonte, e o ar carregava um silêncio que não vinha do mundo — mas de dentro da alma. O homem caminhava por um velho caminho de terra, cujas pedras guardavam histórias que ninguém mais contava. Sem saber por quê, seus passos o levaram a um lugar esquecido: um cemitério antigo, envolto por ciprestes imóveis e o sussurro dos ventos. Ali, de pé junto a uma cova rasa, estavam dois irmãos da fé. Reconheceu-os de imediato — homens de oração, almas que também viam além da carne. Não diziam nada. Apenas fitavam a terra aberta, como quem escuta a voz do invisível. O homem se aproximou e se uniu a eles. Em silêncio, como se algo o chamasse para se curvar. Não havia choro, nem tristeza — apenas reverência. O chão, ainda úmido, parecia sagrado. Como se ali não estivesse enterrado um corpo, mas um chamado, um passado, uma parte da alma que precisava repousar. Não sabiam exatamente o que estavam fazendo ali. Mas sa...

A BEBIDA QUE NÃO SACIA

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O céu estava nublado, mas a luz era intensa. Havia um campo vazio, quase intocado, onde o chão parecia sussurrar antigas promessas esquecidas. Um homem, de semblante firme e olhar que atravessava o tempo, encontrava-se frente a frente com um estranho — um homem que sorria demais, com olhos que evitavam o céu. — Se você estiver certo, me provará que há justiça divina — disse o estranho. — Mas se eu vencer, me dará sua fé. O homem assentiu. Não havia medo em seu coração, apenas a certeza de que a verdade não precisava de gritos — apenas de firmeza. A aposta era simples: uma questão sobre Deus, o Céu e a eternidade. O estranho, arrogante, lançou seus argumentos como lanças, tentando derrubar a convicção do homem. Mas a resposta veio serena, como uma brisa que antecede a chuva: firme, direta, e viva. O estranho perdeu. Mas recusou-se a pagar. — Eu disse que lhe daria cinquenta — falou, zombando. — Mas palavras não valem tanto quanto ações, não é mesmo? Na tentativa de fugir da dívida, o es...

O Fruto Escondido

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  (Um conto inspirado em sonhos) Em uma dimensão onde o tempo não governa e a natureza fala em silêncio, havia uma mangueira solitária, plantada sobre solo sagrado. Suas folhas verdes reluziam como espadas de luz, e seus frutos, grandes e aparentemente verdes, exalavam um mistério profundo. Era dito que aquela árvore não servia para todos. Apenas quem estivesse em sintonia com o invisível poderia saborear seus frutos verdadeiros. Num amanhecer espiritual, um homem caminhava silenciosamente entre os véus do sonho. Guiado por algo maior do que ele mesmo, parou diante da mangueira. Seu coração sentia que ali havia algo a ser compreendido. As mangas, embora verdes por fora, pareciam chamá-lo. Ele estendeu a mão, colheu uma. Parecia crua. Ainda assim, confiando no sussurro de dentro, deu uma mordida. E então... doce. Madura. Divina. Naquele momento, uma revelação tocou seu espírito: nem tudo que parece verde está fora do tempo. Deus oculta bênçãos em cascas simples para testar os olhos ...

A Irmã dos Sonhos

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Durante noites seguidas, ele voava. Às vezes, cruzava desertos. Outras, sobrevoava florestas densas, cidades em ruínas ou mundos que pareciam existir apenas entre os véus do sono e do espírito. Seu corpo era de carne quando dormia, mas sua alma... ah, sua alma era um pássaro. Livre, sensível e vigilante. Em um desses voos, ele viu o caos começar. Pessoas se transformavam em sombras — zumbis, corpos vazios, sem consciência. Um cão feroz atacava, e o mundo parecia se quebrar. Mas ele voava acima de tudo isso, como se soubesse que o céu era seu refúgio. Ele sempre soube controlar seus sonhos. Sempre soube voar. E então, ele a viu. Estava entre um grupo de mulheres, e ali também estava sua esposa. Mas os olhos dele se voltaram para aquela que vinha lhe aparecendo em sonhos há muito tempo — uma irmã da igreja. Seus rostos se cruzaram por segundos, mas o que sentiu foi eterno. Paz. Reconhecimento. Era como se ela sempre fizesse parte de sua história, mesmo que os nomes tenham m...

O guerreiro viking

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Diz-se que, num tempo onde os deuses ainda andavam entre os homens, um guerreiro de cabelos longos e tranças douradas cruzava o deserto. Seu corpo trazia o peso das batalhas, mas era o que levava nos braços que o fazia estremecer. Ali, envolto num pano simples, jazia o seu filho -- o último elo entre ele e a luz. O sol queimava alto. A areia cortava os pés. Mas ele não parava. Até que, diante de uma rocha solitária, ele se ajoelhou. E então... chorou. O guerreiro ajoelhou-se, e seu corpo finalmente cedeu. O peso que o aço não conseguira dobrar, o amor o havia vencido. Lágrimas escorreram por seu rosto coberto de poeira e sangue seco. Elas caíam silenciosas sobre o pano que envolvia a criança. Não havia grito. Não havia súplica. Apenas o silêncio profundo de quem já disse tudo com o coração partido. Ele inclinou o rosto até tocar a testa do pequeno com a sua. Ali, por um breve instante, o mundo parou. O vento cessou. A areia repousou. E então, em voz rouca, ele murmurou: -- "Perdoa...