"O Selo da Visitante"
Havia silêncio naquele fim de tarde. O céu, entre dourado e violeta, parecia esconder segredos antigos. Sentado à sombra de uma figueira antiga, ele contemplava o mundo como quem escuta um sussurro que ainda não foi dito.
Foi então que duas figuras surgiram ao longe. Uma delas, ele reconheceu — uma irmã da igreja, rosto familiar, presença serena. Mas era a que vinha ao lado dela que fez o tempo parar.
Ela caminhava com suavidade, como se pisasse em outra dimensão. Os olhos dela traziam uma calma imensa, e seus lábios, finos e silenciosos, carregavam o mistério de mil palavras não ditas. Era bela, sim — mas de uma beleza que não se descreve com traços, e sim com sensações. Como se o coração dela já tivesse conhecido o dele antes que qualquer vida começasse.
Sem dizer uma palavra, ela se aproximou. A irmã sorriu de leve, como quem entrega algo sagrado. E então, como em um antigo rito esquecido pelas eras, a mulher pousou os dedos no queixo dele e, com infinita delicadeza, selou seus lábios com os dela.
O mundo ao redor desapareceu. Era como se os dois estivessem fora do tempo. Um calor suave percorreu-lhe o peito — não era desejo, era reconhecimento. Algo antigo havia sido ativado. Uma memória adormecida despertava: dois espíritos que um dia prometeram se reencontrar sob o véu da carne.
Ao se afastar, ela sussurrou algo que ele não ouviu com os ouvidos, mas que ecoou dentro dele:
"Logo nos lembraremos de tudo."
E então, ela se foi, como quem nunca esteve. Mas o gosto do beijo ficou — não nos lábios, mas na alma.
Comentários
Enviar um comentário