A Irmã dos Sonhos
Durante noites seguidas, ele voava.
Às vezes, cruzava desertos. Outras, sobrevoava florestas densas, cidades em
ruínas ou mundos que pareciam existir apenas entre os véus do sono e do
espírito. Seu corpo era de carne quando dormia, mas sua alma... ah, sua alma era
um pássaro. Livre, sensível e vigilante.
Em um desses voos, ele viu o caos começar. Pessoas se transformavam em
sombras — zumbis, corpos vazios, sem consciência. Um cão feroz atacava, e o
mundo parecia se quebrar. Mas ele voava acima de tudo isso, como se soubesse
que o céu era seu refúgio.
Ele sempre soube controlar seus sonhos. Sempre soube voar.
E então, ele a viu.
Estava entre um grupo de mulheres, e ali também estava sua esposa. Mas os
olhos dele se voltaram para aquela que vinha lhe aparecendo em sonhos há muito
tempo — uma irmã da igreja. Seus rostos se cruzaram por segundos, mas o que
sentiu foi eterno. Paz.
Reconhecimento. Era como se ela sempre fizesse parte de sua história, mesmo
que os nomes tenham mudado com o tempo.
Num outro sonho, ela surgiu novamente. Havia água. Ele tinha uma torneira
de onde saía uma água limpa e clara. A dela, no alto de uma colina, jorrava sem
controle. Curiosamente, ele podia controlar ambas. Quando abria a sua, a dela
se silenciava. Quando fechava a sua, a dela transbordava. Era como se seus
fluxos estivessem entrelaçados — ele era o guardião do equilíbrio entre os dois
mundos.
Mas foi no terceiro sonho que tudo se revelou.
Ele era um pássaro de porte médio, voando pela floresta. Sentia o vento nas
penas e a liberdade nos olhos. De repente, surgiu uma sombra: um pássaro
gigantesco, feroz, com garras prontas para destruí-lo. O medo o tocou por um
instante... até que ela apareceu.
Não como pássaro, mas como mulher — erguendo a voz, chamando outros,
formando um círculo de proteção. Com firmeza, ela declarou:
— Não seremos mais amedrontados por esses gigantes. Unidos, venceremos.
E assim foi. Pela primeira vez, ele não voou para fugir. Voou para ficar.
Para lutar. Para lembrar que não estava só.
Ele acordou em paz. Mas sabia que aquilo não era apenas um sonho. Era um chamado.
Nos dias que se seguiram, o mundo real parecia tocar o véu do invisível.
Durante o culto de domingo, ele a viu de longe. A mesma irmã da igreja. O mesmo olhar sereno. O mesmo semblante que nos sonhos liderava multidões contra as trevas. Ela estava lá, em carne e osso, e mesmo sem palavras, o espírito reconheceu o espírito. Ele desviou o olhar, mas por dentro, algo se acendeu. Como se suas almas tivessem se reencontrado... depois de séculos.
Naquela noite, veio outro sonho.
Dessa vez, não estavam voando, nem lutando. Estavam dentro de um templo
antigo — colunas de pedra, tochas acesas, e inscrições nas paredes com línguas
esquecidas. Ele vestia branco, com uma faixa dourada nos ombros. Ela estava de
azul profundo, com símbolos no rosto e uma pulseira marcada com o olho de
Hórus. Ambos estavam mais
jovens... e ao mesmo tempo infinitamente antigos.
Ela se aproximou e, com voz calma, disse:
— Você lembra agora?
Ele tentou falar, mas a emoção o impediu. Imagens começaram a surgir na
mente dele: os dois em um salão sagrado, cercados de escribas e aprendizes. Ela
trazia mensagens dos céus. Ele as interpretava. Eram guardiões do saber espiritual
em tempos remotos — no Egipto ou em algum reino esquecido, onde espírito e
matéria caminhavam juntos.
De repente, o templo tremeu. Gritos distantes ecoaram. As sombras
retornavam.
Ela segurou sua mão.
— Ainda estamos sendo chamados, irmão. A missão não acabou.
Ele acordou suando, o coração batendo forte. Mas havia uma certeza dentro dele: seus sonhos não eram apenas sonhos. Eram memórias. Chamados. Profecias pessoais.

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