A Trilha dos Evangelistas



Por Álvaro – para o blog Contos Místicos

Caminhava por uma terra que meus olhos nunca tinham visto.

O chão era seco, mas não morto.

O céu, de um azul tão profundo que parecia respirar.

A cada passo meu, brotava vida.

Folhas verdes, viçosas, rompiam do solo como se meus pés despertassem a terra.

Era como se o chão esperasse por mim.

E eu não sabia por quê.

Continuei andando, deixando atrás de mim uma trilha de esperança.

Cada planta que surgia sussurrava silêncio — não um silêncio vazio, mas um silêncio que dizia:

“Você está no caminho.”

Até que os vi.

Quatro homens, em trajes longos como túnicas de uma era antiga, se aproximaram.

Um deles carregava um cajado.

Seus olhos eram tão profundos quanto o céu daquele lugar.

Havia sabedoria nos seus rostos, mas também um certo amor que me desarmou.

Eles pararam diante de mim, e como se falassem ao mesmo tempo, disseram com voz mansa:

— Somos os quatro evangelistas.

— Mateus. Marcos. Lucas. João.

Senti meu coração estremecer.

Não de medo.

Mas de reconhecimento.

Era como se eu já os conhecesse.

Como se, em alguma vida ou algum plano, eu já tivesse caminhado com eles.

O que mais me surpreendeu foi que nenhum deles pregava.

Nenhum deles dizia “arrependa-te” ou “leia isso” ou “faça aquilo”.

Eles apenas estavam.

E naquele instante, compreendi:

o evangelho deles não era falado — era vivido.

Aquele cajado que um deles segurava tocou o chão, e uma planta cresceu ali também.

Não por mágica, mas por propósito.

Eles também deixavam vida onde pisavam.

Um deles, de barba curta e olhos doces, se aproximou e me disse:

— “Você caminha em terra virgem porque carrega sementes novas. Onde ninguém vê colheita, você deixará frutos. Continue plantando com os pés.”

— “A mensagem que você carrega não será escrita em papel, mas em caminhos vivos.”

Então, juntos, caminhamos em silêncio.

Cinco passos.

Cinco plantas brotaram.

E depois...

eles desapareceram como poeira de ouro ao vento.

Acordei com os pés quentes, como se tivessem caminhado de verdade.

E uma certeza pulsando no peito:

há caminhos invisíveis que só se revelam a quem aceita semear com passos.


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