A BEBIDA QUE NÃO SACIA


O céu estava nublado, mas a luz era intensa. Havia um campo vazio, quase intocado, onde o chão parecia sussurrar antigas promessas esquecidas. Um homem, de semblante firme e olhar que atravessava o tempo, encontrava-se frente a frente com um estranho — um homem que sorria demais, com olhos que evitavam o céu.

— Se você estiver certo, me provará que há justiça divina — disse o estranho. — Mas se eu vencer, me dará sua fé.

O homem assentiu. Não havia medo em seu coração, apenas a certeza de que a verdade não precisava de gritos — apenas de firmeza.

A aposta era simples: uma questão sobre Deus, o Céu e a eternidade. O estranho, arrogante, lançou seus argumentos como lanças, tentando derrubar a convicção do homem. Mas a resposta veio serena, como uma brisa que antecede a chuva: firme, direta, e viva.

O estranho perdeu.

Mas recusou-se a pagar.

— Eu disse que lhe daria cinquenta — falou, zombando. — Mas palavras não valem tanto quanto ações, não é mesmo?

Na tentativa de fugir da dívida, o estranho deixou algo para trás: uma garrafa de vidro âmbar, com rótulo antigo e a inscrição "LITE". O homem a pegou. Era leve, mas parecia conter algo além do natural. Girou-a nas mãos. O líquido dentro reluzia dourado, como ouro líquido.

— Pode ficar — disse o estranho, afastando-se. — Vai ver que é mais valiosa do que qualquer nota.

O homem olhou a garrafa. Tomou um pequeno gole.

Esperava sentir algo — calor, alegria, vertigem.

Mas... nada.

Era como beber vento com gosto de terra. Não havia prazer. Não havia presença.

Curioso, observou que, mesmo após o gole, o líquido permanecia no mesmo nível. Tentou de novo. Nada. A garrafa era infinita. Mas a cada gole, sentia-se mais vazio. Aquilo que era “mágico” não trazia vida. Era um símbolo — um eco do mundo: infinito em aparência, inútil em essência.

Foi então que o homem lembrou-se do azeite da viúva — aquele que sustentou um profeta e salvou vidas. A diferença entre os dois líquidos era clara como água e fogo: o azeite vinha de Deus, para alimentar e curar. A bebida do estranho era apenas... ruído. Aparência. Ilusão.

Ele parou de beber. Olhou para o céu. Sentiu, mais uma vez, o peso leve da fé.

Não era uma garrafa infinita. Era um vazio cheio de promessas quebradas.

E então, sorriu.

Não pelo gosto da bebida. Mas pela 

certeza de que sua sede era outra.

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