O guerreiro viking


Diz-se que, num tempo onde os deuses ainda andavam entre os homens, um guerreiro de cabelos longos e tranças douradas cruzava o deserto. Seu corpo trazia o peso das batalhas, mas era o que levava nos braços que o fazia estremecer. Ali, envolto num pano simples, jazia o seu filho -- o último elo entre ele e a luz. O sol queimava alto. A areia cortava os pés. Mas ele não parava. Até que, diante de uma rocha solitária, ele se ajoelhou. E então... chorou. O guerreiro ajoelhou-se, e seu corpo finalmente cedeu. O peso que o aço não conseguira dobrar, o amor o havia vencido. Lágrimas escorreram por seu rosto coberto de poeira e sangue seco. Elas caíam silenciosas sobre o pano que envolvia a criança. Não havia grito. Não havia súplica. Apenas o silêncio profundo de quem já disse tudo com o coração partido. Ele inclinou o rosto até tocar a testa do pequeno com a sua. Ali, por um breve instante, o mundo parou. O vento cessou. A areia repousou. E então, em voz rouca, ele murmurou: -- "Perdoa-me... meu filho. Levei-te para longe... e agora só te levo de volta à eternidade." A rocha à sua frente parecia ouvir. Ela guardava ecos de outros guerreiros, outras perdas, outros silêncios. Mas naquele dia... ela se tornou altar. Ali, ele não deixou o corpo da criança -- deixou a parte de si que jamais voltaria. Ele ficou ali, imóvel, por um tempo que não se mede em minutos. Seu peito já não ardia de raiva ou fúria. Agora era vazio -- como o céu que o observava em silêncio. Mas no vazio... algo se moveu. Um vento suave soprou de trás da rocha. Não era como os ventos do deserto -- era frio, antigo, carregando consigo um murmúrio esquecido. O guerreiro levantou os olhos. Ali, entre o calor que tremeluzia no horizonte, uma figura se formava. Não era homem... nem fera. Era uma sombra translúcida, envolta em luz ténue. Tinha forma feminina... e seus olhos brilhavam como os de uma mãe. Ela não falou, mas ele compreendeu. Compreendeu com a alma, como se as palavras tivessem sido gravadas directo no peito: -- "Teu luto é sagrado. Mas tua jornada... ainda não terminou." Ele baixou os olhos para a criança. Pela primeira vez, notou que o rosto do bebé estava sereno, quase sorrindo -- como quem partira em paz. O guerreiro passou a mão com ternura sobre a cabeça pequena. Depois, de pé, ainda trémulo, ele envolveu o pequeno corpo com pedras ao pé da rocha, formando um pequeno santuário. E então, com o sol agora se pondo atrás de si, ele se afastou. Não como quem foge... Mas como quem parte carregando em si um novo propósito. Cada pegada que deixava na areia... era uma prece. Cada passo, um voto silencioso: Nunca mais lutar por glória. Apenas por verdade. E por amor.

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