À BEIRA DA TERRA SANTA
Era fim de tarde, mas o céu parecia já em luto. As nuvens pesavam como véus sobre o horizonte, e o ar carregava um silêncio que não vinha do mundo — mas de dentro da alma. O homem caminhava por um velho caminho de terra, cujas pedras guardavam histórias que ninguém mais contava.
Sem saber por quê, seus passos o levaram a um lugar esquecido: um cemitério antigo, envolto por ciprestes imóveis e o sussurro dos ventos.
Ali, de pé junto a uma cova rasa, estavam dois irmãos da fé. Reconheceu-os de imediato — homens de oração, almas que também viam além da carne. Não diziam nada. Apenas fitavam a terra aberta, como quem escuta a voz do invisível.
O homem se aproximou e se uniu a eles. Em silêncio, como se algo o chamasse para se curvar. Não havia choro, nem tristeza — apenas reverência. O chão, ainda úmido, parecia sagrado. Como se ali não estivesse enterrado um corpo, mas um chamado, um passado, uma parte da alma que precisava repousar.
Não sabiam exatamente o que estavam fazendo ali. Mas sabiam que tinham que estar.
A luz era pouca. O céu parecia hesitar entre o dia e a noite. Mas havia uma presença — não vista, apenas sentida. E era forte.
O homem olhou para a cova. Nenhum corpo. Nenhum caixão. Apenas terra remexida.
E compreendeu: não estavam ali para enterrar alguém, mas para enterrar o que os impedia de viver plenamente.
Um passado? Um medo? Uma dúvida?
Talvez tudo isso. Talvez mais.
E então, ali mesmo, com os olhos fechados e o espírito aberto, ele sussurrou:
— Senhor… recebe o que morre em mim, para que Tua vida floresça.
Os outros não disseram palavra, mas a oração dele ecoou nos três. E por um instante, a escuridão pareceu recuar. Uma brisa tocou seus rostos.
Não era vento. Era resposta.
Eles haviam estado à beira da morte, mas também à beira da terra santa — o limiar entre o que se perde e o que renasce.
E assim partiram, em silêncio, carregando nada…
Mas voltando com tudo.

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